sábado, 18 de abril de 2020

PEQUENO GUIA PARA IDENTIFICAR GURUS


PRA COMEÇO DE CONVERSA

O que é um guru?
Qual é o papel de um guru?
Até que ponto o guru é importante?
E quando um guru pode ser um grande problema na sua vida?
Já se fez essas perguntas hoje?

Guru é um líder. Na Índia, é um mestre espiritual, alguém que auxilia seus seguidores no caminho da iluminação espiritual. A palavra se universalizou, está no mundo todo, e agora se refere a um líder, um líder no campo espiritual ou no campo material. 

Cena do filme Guru do Amor (2008)


O BOM E O MAU

É preciso diferenciar o, digamos, Bom Guru do Mau Guru, ou seja, separar o joio do trigo. O que define e separa o Bom do Mau é o critério da Ética. O Bom Guru é aquele que se utiliza desse cargo, não para se perpetuar, mas para ser um meio através do qual seu discípulo alcançará a próprio conhecimento. O Mau Guro, pelo contrário, utiliza o discípulo como um meio de se promover eternamente. Por que é uma questão de ética? Simplesmente porque tudo depende da forma como você trata o outro. Se você trata o outro como um fim em si mesmo (que é o caso do Bom Guru), então está de acordo com os princípios de uma ética racional; se você trata o outro como um meio para se promover (que é o caso do Mau Guru), então é claro que você está ferindo o princípio ético da dignidade da pessoa humana. O que diz esse princípio? O seguinte: todo ser humano deve ser tratado como um fim, não como um meio, porque todos nós somos livres por natureza. E no momento em que você trata alguém como meio, você está tirando a liberdade dessa pessoa. Você está USANDO uma pessoa como se ela fosse um OBJETO de promoção.

O Bom Guru é aquele que serve como um esclarecedor, que pretende proporcionar ao seu discípulo meios para que ele pense por si só e assim tenha AUTONOMIA (seja senhor de si mesmo).

O Mau Guru é aquele que serve como um escravizador, que pretende fazer seu discípulo acreditar que ele depende inteiramente de alguém para pensar e para agir, tornando seu seguidor um ESCRAVO IMATURO (uma eterna criança que necessita eternamente de um pai).



NOTAS SOBRE O MAU GURU

O Mau Guru é aquele que se propõe a ser o redentor de seus discípulos. A palavra redentor significa "aquele que redime, aquele que liberta". O Mau Guru acredita, e faz seus seguidores acreditarem, que só existe liberdade através dele. Mas liberdade de quê? Liberdade de escravidões. Aí vai uma pequena lista de escravidões básicas:



  • Escravidão de coisas materiais: você não está no caminho certo, porque (MOTIVOS) você é apegado demais às coisas materiais, a dinheiro, a carros, a casas, enfim, a bens materiais múltiplos, e a pessoas. Nesse caso, o Mau Guru se apresenta como aquele que vai fazer você se desapegar para alcançar um equilíbrio físico-mental-espiritual. Você não está entendendo, o Mau Guru vai dar ÊNFASE que é só através dele que você vai atingir esse equilíbrio.  

  • Escravidão da burrice: você não está no caminho certo, você está cometendo burrices demais, não está conseguindo raciocinar bem, está fazendo escolhas políticas e filosóficas erradas. Adivinha só. Sim, isso mesmo, meus amigos, só o Mau Guru pode lhe oferecer uma saída pra isso! O Mau Guru se torna, então, o Metre da Razão Absoluta das Políticas e Filosofias Verdadeiras.

  • Escravidão religiosa: você não está no caminho certo, ou (1) porque está na religião errada ou (2) porque está fazendo coisas erradas na sua religião ou (3) porque você tem religião ou (4) porque você não tem religião. Nesses casos, existe Mau Guru pra tudo: (1) pra dizer que você está na religião errada e que só ele é que pode te ajudar nessa; (2) pra te dar sermão sobre as coisas erradas que você anda fazendo na sua religião; (3) pra dizer que a religião não é uma coisa necessária, que você é um escravo dela e só o Mau Guru pode te libertar dessa mentira; e (4) pra dizer: meu filho, a religião é algo necessário, venha comigo que só eu posso te mostrar o tempo que você tá perdendo sem religião.


O Mau Guru faz um diagnóstico da sua vida e é ali nos problemas detectados que ele vai fazer sucesso. Preste bem atenção no que acabei de falar, não é você que vai fazer sucesso, é o Mau Guru que vai fazer sucesso, isso mesmo. Sucesso em cima do que ele classifica como defeitos seus que precisam ser corrigidos por ele. Em tudo isso, o Mau Guru se coloca como aquele que tem a Verdade. Sim, Verdade com V maiúsculo. A Verdade Verdadeira (o Mau Guru é O Mestre dos Pleonasmos), a Verdade Absoluta. 



É NECESSÁRIO UM GURU?

Não é necessário você ter um guru. É necessário você ter um esclarecedor. O que é isso? 

O esclarecedor é alguém que num primeiro momento vai lhe oferecer várias visões de mundo e vai mostrar a sua própria visão sobre esses vários caminhos que o mundo pode lhe oferecer, alguém que vai lhe oferecer certos toques, certos alarmes, que vai lhe sugerir modos de pensar diferente. Mas, no fim das contas, você é que vai tomar as decisões. O esclarecedor é esse que sabe que só você pode ser seu próprio e verdadeiro mestre. Só você e mais ninguém, porque é só você que deve tomar suas próprias decisões e conclusões. O esclarecedor é aquele que não quer seguidores, ele quer companheiros de caminhada, ele quer amigos de sabedoria, ele quer que a sua autonomia brilhe e clareie seu próprio caminho. O esclarecedor é aquele que quer um dia ser inútil na sua vida, para que você não precise mais dele, pois você sabe muito bem caminhar com as próprias pernas.



HUBERTO ROHDEN: FILÓSOFO ESCLARECEDOR 

Para finalizar, gostaria muito de citar algumas palavras de um pensador e educador que admiro muito, alguém que considero um grande esclarecedor, um grande filósofo brasileiro. Estou falando de Huberto Rohden. Nascido em 1893 no estado de Santa Catarina, Brasil, Rohden passou a vida toda como um amante da sabedoria, um buscador de conhecimento. Criou a Filosofia Univérsica, linha de pensamento filosófico que defende a existência de uma Harmonia Cósmica baseadas em leis éticas universais, onde o papel do ser humano é buscar pelo autoconhecimento e, através disso, promover a autorrealização, ou seja, a realização de si mesmo como ser humano pleno, senhor de si próprio, para entrar assim em perfeita conexão com o Universo, surgindo daí o Homem Univérsico


Huberto Rohden faleceu em 1981, deixando uma vasta obra composta por 65 livros que tratam dos mais variados temas, como religião, história, educação, ética, estética e filosofia. Rohden traduziu obras como o Novo Testamento, a Bhagavad Gita e o Tao Te Ching, com a pretensão de torná-las acessíveis ao grande público a preços populares. Para Rohden, o ser humano não deve ser escravo ou dependente de nenhum poder terreno. Todos estamos aqui pelo mesmo propósito: o crescimento espiritual. Então, não é legítimo a ninguém pretender ser senhor da liberdade do outro. 

Bom, sem mais delongas, deixo enfim as palavras que gostaria de finalizar esse texto, são palavras de Huberto Rohden:

"O fim do guru não é levar de reboque o discípulo, mas, sim, o de dar-lhe plena autonomia e autocracia, de maneira que, algum dia, o discípulo possa seguir o seu caminho com perfeita clareza e absoluta segurança, sem o mestre. E então o mestre externo passou a ser um mestre interno. O maior triunfo de um verdadeiro mestre consiste em tornar-se supérfluo; mestre que nunca se torna supérfluo não cumpriu a sua missão." 
(Roteiro Cósmico. São Paulo: Martin Claret, 2011, p. 39)


sábado, 11 de abril de 2020

AUTOCONHECIMENTO: O QUE SÓCRATES E CHAVES PODEM NOS ENSINAR

I. O ALTO QUE ELEVA E LEVA AO AUTO

O autoconhecimento exige um alto conhecimento. O que seria o autoconhecimento? Em linhas gerais, é o conhecimento de si mesmo. E por que exige um alto (de altura, grande dimensão) conhecimento? Porque, talvez, uma das coisas mais difíceis da vida é a gente se conhecer realmente. Para coisas consideradas difíceis, as tarefas são mais dificultosas, mais trabalhosas do que o normal. 


Estamos acostumados a dizer que não existe ninguém melhor do que a gente mesmo pra se conhecer. Em certa medida, isso é verdade. É verdade no sentido de que apenas nós mesmos podemos trilhar esse caminho para dentro de nós mesmos. Por outro lado, em certa medida não é verdade no sentido de que não necessariamente nos conhecemos de fato só porque nós somos nós. A verdade é que muitos estão ocupados demais com coisas fúteis demais para pensar. Isso me lembra uma música de uma banda dos anos sessenta aqui no Brasil, que considero melhor que os tios Beatles diga-se de passagem - desculpe-me se feri seus sentimentos musicais. Eu estou falando do grupo Os Mutantes, meus caros. Em 1968, em seu álbum de estreia, lançaram a música "Panis et Circenses", que em latim significa pão e circo. Essa canção foi composta por Caetano Veloso e Gilberto Gil e traz um verso que se encaixa bem no que quero dizer:


(...) as pessoas na sala de jantar
São ocupadas em nascer e morrer 



Capa do álbum Os Mutantes (1968) que contém a música "Panis et Circenses".

Bom, eu não tenho a interpretação absoluta das obras de arte do universo. Na verdade, uma obra artística permite infinitas interpretações. Por isso é considerada uma obra de arte e não um objeto científico. Quando Os Mutantes entoam esses versos acima, eles querem basicamente dizer que as pessoas estão muito mais preocupadas com coisas fúteis do que em realmente viver a vida. Estão muito mais ocupadas em nascer e morrer e se esquecem de viver o que existe entre esses dois extremos. E viver exige de nós um pensamento aprofundado. Mas quem está disposto a pensar? 



II. PENSAR BEM PARA VIVER BEM

Viver por viver é apenas viver. E o que o ser humano quer, segundo o filósofo Aristóteles (385 a.C. - 323 a.C.), é viver BEM. Só que para viver bem, meus amigos e minhas amigas, precisamos inexoravelmente colocar a cuca pra trabalhar. Eu vivo bem se eu tomo as melhores decisões possíveis diante da vida; para tomar as melhores decisões possíveis, preciso pensar, preciso refletir sobre todos os caminhos que se apresentam  mim. 

Busto do filósofo grego Aristóteles.

Em Filosofia temos uma expressão em latim, conditio sine qua non, que significa "condição sem a qual não pode ser". Então podemos afirmar que pensar, refletir, é conditio sine qua non para viver bem na medida do possível. E aqui retornamos ao tema que deu entrada a esse texto, o autoconhecimento.

Eu só posso ter uma vida tranquila, viver bem, se eu me conhecer; para conhecer a mim mesmo, preciso praticar a reflexão. Eu coloco praticar porque considero que pensar é um esporte, ainda que mental, mas um esporte, um exercício que nos faz sim gastar energia. E assim como todo esporte, quanto mais pratico, mais aperfeiçoo minhas habilidades. Nesse sentido, o autoconhecimento é um exercício mental que exige de cada um de nós um alto conhecimento, e, consequentemente, esse alto conhecimento sobre mim mesmo só pode ser construído ao longo do tempo. Ou seja, conhecer a si mesmo não é tarefa muito fácil. Exige paciência, muita paciência. Muitas pessoas se frustram nessa busca porque querem resultados imediatos, aqui e agora, de preferência pra ontem! Pessoas desesperadas, vazias de alto conhecimento sobre si mesmas, correm atrás de gurus que possam lhes dar a resposta absoluta sobre todas as coisas, quando, na verdade, a resposta está dentro de nós mesmos. 

Meus caros, a Filosofia não existe para oferecer uma receita da Felicidade. Oh, a tão sonhada Felicidade! Tema pensado e repensado, esquentado e requentado por todos os pensadores da história da Filosofia. Não, meus caros, a Filosofia não pode oferecer Uma Resposta Absoluta, Receita Para A Felicidade Eterna e Infinita. Na verdade, o que podemos colher do pensamento filosófico são orientações. O filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860) - que não é o melhor exemplo de pessoa para se falar de Felicidade (risos meus) -- afirma na sua obra O Mundo como Vontade e Representação (1819) que o papel do filósofo é o de esclarecedor. 

Arthur Schopenhauer, conhecido por seu pessimismo filosófico.

O filósofo esclarece, elucida, orienta. Portanto, não cabe à Filosofia oferecer Uma Resposta Absoluta do Caminho Brilhoso da Felicidade. MAS, mas - vejam que nem tudo está perdido -, mas podemos sim buscar na Filosofia algumas dicas de suma importância.



III. PAUSA PRA BEBER AQUELA ÁGUA... AGORA SIM! VAMOS AO CONHECE-TE A TI MESMO

Sócrates (469 a.C. - 399 a.C.), filósofo ateniense do período da Grécia Antiga, não escreveu nada. Não estava ocupado em nascer e morrer, pelo contrário, sua maior preocupação foi a vida. Tudo o que sabemos sobre seu pensamento filosófico é graças ao seu melhor discípulo, o filósofo Platão (428/427 a.C. - 348/347 a.C.), que registrou as ideias de seu mestre em obras chamadas de Diálogos. Deixem-me só abrir uns parênteses aqui: (Obrigado, Platão!). 

Estátua do filósofo Sócrates, na entrada da moderna Academia de Atenas.

Sócrates não escreveu nada porque ele preferiu viver a Filosofia. E para Sócrates a Filosofia é uma reflexão sobre a vida, é uma reflexão sobre nós mesmos e sobre nossas ações. O autoconhecimento e a ética, portanto, são os pilares do seu pensamento. Lá na Grécia Antiga existia o Oráculo de Delfos, que era um lugar que você visitava para fazer perguntas e pedir conselhos à divindade, que no caso de Delfos era o deus Apolo. Acreditava-se que a Pítia (ou Pitonisa), que era a sacerdotisa responsável pelo santuário, era inspirada pelo deus Apolo e por isso ela era considerada uma espécie de profetiza. Na entrada do Oráculo de Delfos existia a seguinte frase: Conhece-te a ti mesmo e assim conhecerás o Universo. Sócrates adotou essa frase para a sua vida. A sua Filosofia é um convite para que todo ser humano conheça a si mesmo.  

Sacerdotisa de Delfos (1891), pintura do artista inglês John Collier.

Mas a questão é que o AUTOconhecimento exige ALTO conhecimento. Conhecer a si mesmo é uma tarefa metafísica, por isso mesmo trabalhosa. Estamos muito mais acostumados em lidar com coisas materiais, objetivas, palpáveis. É muito mais fácil, porque é muito mais cômodo. Olhar, ouvir, sentir, é muito mais fácil. Já o pensar exige aprofundamento, exige ir além dos sentidos, ultrapassar a APARÊNCIA para poder dar enfim os primeiros passos na trilha da nossa ESSÊNCIA. Por isso que usei a palavra metafísica que em Filosofia significa "aquilo que está além - acima - dos sentidos", além (meta) da matéria (física).  

Mas sabe qual é o lado bom de tudo isso? É que é difícil, mas não é impossível. É possível porque o autoconhecimento é tarefa essencialmente humana, ou seja, é acessível a todo e qualquer ser vivo que possui racionalidade. Somos todos capazes de nos autoconhecer. E isso independe de grau de escolaridade, a idade que você tem ou de quantos livros você já leu na vida. Tudo isso ajuda? Sim, claro, ajuda bastante. Mas atrapalha muito se você não tem o querer necessário para conhecer a si mesmo. Para dar o primeiro passo na estrada do autoconhecimento, você precisa querer. existem pessoas que já leram bibliotecas imensas, mas que nunca pararam pra se perguntar: quem sou eu? Qual o meu papel no mundo? Qual a minha razão de ser e de estar? É o que eu costumo chamar de papagaios. Repetem, repetem e repetem tudo o que leem. São pessoas que conhecem mais aos outros - os inúmeros escritores e autores e diretores de filmes cult e faladores -, mas não conhecem nem a beirada de si mesmas. Conhecer a si mesmo é fazer de tudo isso apenas um meio para uma finalidade principal: adentrar em si mesmo. Também não sou nenhum louco idealista - pelo menos eu acho que não sou - pra dizer pra vocês que o autoconhecimento exige a anulação dos nossos sentidos. Ah, o professor disse que pra eu me conhecer, tenho que me trancafiar no quarto mais escuro e solitário do mundo, de olhos fechados, calado, no silêncio mais profundo e fúnebre do cosmos, pra perguntar a mim mesmo quem sou eu, de onde vim e pra onde vou. Não, meus caros. Existem vários métodos e maneiras de se aprofundar em si mesmo. Meditação, leitura de bons livros, apreciar uma deliciosa música melodiosa e poética, assistir a filmes clássicos e até os mais populares possíveis. De todos esses meio podemos tirar grandes reflexões sobre a vida, sobre a existência, sobre a gente mesmo. Mas é fazer de tudo isso um meio. Ou seja, utilizar nossos sentidos - visão, audição, tato, paladar e olfato - como um meio para o autoconhecimento. 



IV. PREFIRO MORRER DO QUE PERDER A VIDA... SEM FILOSOFIA

Uma das coisas mais saborosas da vida, meus caros, é você buscar pelo conhecimento de si mesmo.  É desafiador. Isso nos proporciona uma áurea de paz interior. E tudo ao nosso redor fica mais cheiroso pra alma. O autoconhecimento tem a duração de uma vida inteira. Ou, na verdade, nem isso. Morremos sem nos conhecer totalmente. Cada um de nós tem um universo infinito dentro de si. Por isso temos que ter paciência. Tem gente que termina o Ensino médio ou a Faculdade e fiz que já se formou. Engana-se quem pensa assim. A formação é contínua. Saímos do Ensino Médio ou da Faculdade mais deformados ainda. E durante a vida é que vamos nos construindo, nos formatando, nos modelando. A paciência é uma grande amiga no desafio do autoconhecimento. Os filósofos que se empenharam nessa tarefa foram felizes, meus amigos, eles foram felizes. Não é em vão que Sócrates preferiu ser condenado à morte a ter que deixar de lado a Filosofia. 

Uma vida sem reflexão não vale a pena ser vivida, disse Sócrates momentos antes do instante derradeiro de sua morte. Essa frase só encontra paralelo na frase do Chaves, do seriado mexicano de mesmo nome criado por Roberto Gómez Bolaños. Diz Chaves no episódio 113 da 4ª Temporada (1976): "eu prefiro morrer do que perder a vida". Frase lapidar, convenhamos. Resumiu de maneira simples e bem humorada a frase socrática. Uma vida sem Filosofia, sem reflexão, sem a busca do conhecimento de si mesmo, é uma vida perdida. É preferível morrer do que perder a vida desse jeito. Chaves também é cultura.

A Morte de Sócrates (1787), pintura do artista francês Jacques-Louis David.

sábado, 4 de abril de 2020

LARANJA MECÂNICA E A MECÂNICA DO LIVRE ARBÍTRIO: O QUE KUBRICK, AGOSTINHO E KANT TÊM EM COMUM?

Alex (interpretado pelo ator Malcolm McDowell) e sua gangue. 

Bom, sem muita firula, gostaria de levantar uma questão que é abordada no filme Laranja Mecânica, do grandiosíssimo cineasta norte-americano Stanley Kubrick (1928-1999).

Para quem não sabe, é um dos meus cineastas preferidos, dentre alguns poucos, mas que considero geniais, como nossos brasileiros Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Rogério Sganzerla, Héctor Babenco, Cacá Diegues, Ruy Guerra, Guel Arraes, Júlio Bressane, Walter Salles, e Jorge Furtado; e dentre os estrangeiros Ingmar Bergman (uma paixão especial por este), Akira Kurosawa, Sergio Leone, Steven Spielberg, Martin Scorsese e Quentin Tarantino. Kubrick ilustra essa singela lista com sua áurea de gênio.

Stanley Kubrick

Confesso que não sou dos melhores em se tratando de cinema. Não acompanho os lançamentos em tempo real, não leio assiduamente as críticas, não sou fanático por saber quem ganhou ou deixou de ganhar o Oscar ou a Palma de Ouro. Não que eu não considere tudo isso da maior importância, como na verdade não considero mesmo de MAIOR importÂNCIA, mas sei que, sim, tudo isso tem considerável importância. Apenas não superestimo mais que a qualidade dos filmes em si. Em outras palavras, não uso nada disso como régua pra decidir o que eu assisto ou deixo de assistir na minha casa ou no cinema mais próximo e mais barato e mais confortável. Assisto, simplesmente, o que eu quero e gosto e aquilo que eu acho que tenho que assistir. Se tal ou outro tal filme abocanhou as maiores e mais relevantes premiações cinematográficas da história da humanidade... isso eu vejo depois - se minha paciência permitir. Em cinema, falo daquilo que gosto de assistir. 

Eu falei no início que esse texto seria sem firula. Olha só o que você já teve que ler pra chegar até aqui... (pausa para o leitor verificar a quantidade de palavras que já leu, para dar aquela velha bocejada diante da tela, refletir se vale a pena ler esse escritor virtual... ler ou não ler, eis a questão...)

Gostaria de deixar bem claro que não sou nenhum crítico de cinema e nem tenho a menor vontade/vocação/paciência/vontade (de novo) de ser um pretenso escritor que analisa filmes, detalhes, intenções, fotografia e cenas pra depois emitir uma nota avaliativa em estrelas ou números ou letras (B+ ou -A? pra esse meu texto cheio de firulas?). Sou leitor, escritor e professor de filosofia, que admira a sétima arte e gosto de tratar de filmes dentro do campo da reflexão filosófica. 

O filme em questão é Laranja Mecânica, de 1971, dirigido por Stanley Kubrick. 

Capa do filme 

Como muitos já devem saber, o filme é baseado no livro de mesmo nome escrito pelo autor inglês Anthony Burgess (1917-1993) e publicado pela primeira vez em 1966. 

Anthony Burgess, autor da distopia Laranja Mecânica.

Só um detalhe que não pode escapar: se você prestar bem atenção na filmografia de Kubrick, vai perceber que ele adorava fazer filmes baseados em livros. É o caso, por exemplo, de (segura que lá vai lista):

O Grande Golpe (1956)

Glória Feita de Sangue (1957) 

Spartacus (1960) 

Lolita (1962)

Dr. Fantástico (1964) 

2001: Uma Odisseia no Espaço (1968) 

Barry Lyndon (1975)

O Iluminado (1980) 

Nascido Para Matar (1987) 

De Olhos Bem Fechados (1999)


Notou que praticamente todos os filmes do Kubrick são baseados em livros? Pois é, ficaram de fora apenas seus dois primeiros filmes: 

Medo e Desejo (1953) 

A Morte Passou por perto (1955) 


O livro de ficção científica Laranja Mecânica, que é o décimo oitavo de Anthony Burgess, retrata a mecânica da violência e os meandros da delinquência juvenil. E, para quem não sabe, é baseado num episódio tremendamente trágico: o estupro da primeira esposa do autor. 

Capa da primeira edição inglesa do livro

O filme de Stanley Kubrick, não é de se negar, capta muito bem essa atmosfera de perversão e criminalidade. Um grupo de jovens delinquentes, liderados pelo sociopata e protagonista Alex, saem pela distópica cidade inglesa em busca de diversão. Que diversão seria essa? Eles a chamam de "ultra violência": chutam mendigos velhos que cantarolam pelos becos da cidade, invadem casas, estupram, brincam com a dor alheia e são capazes até matar, tudo em nome da tão almejada diversão somente atingida, como uma espécie de nirvana budista, através do ritual da ultra violência.

Olha, não estou aqui para soltar os detalhes do filme. Assista, seu preguiçoso, e tire suas próprias conclusões. Mas fiz você perder seu tempo até aqui com esse montante de palavras para tocar num ponto que considerei bastante filosófico. 


ALEX E O TRATAMENTO LUDOVICO

Alex é preso por suas peripécias criminosas. Na prisão, é submetido a uma tecnologia que está sendo desenvolvida para combater a criminalidade, chamada de Tratamento Ludovico. O Tratamento Ludovico funciona da seguinte maneira: você coloca uma pessoa diante de infinitas imagens de violência de toda natureza, brigas, sangue, torturas, estupros, e injeta na pessoa, naquele mesmo instante, uma substância em seu organismo que irá provocar sensações de enjoo e ânsias de vômito. Segundo a lógica do Tratamento, a partir disso, toda vez que a pessoa se ver em situações que envolvam violência, ela, por associação, passará, no mesmo momento, a vivenciar uma situação de mal estar gigantesco. Isso que acontece com Alex. Ou seja, o Tratamento Ludovico, promovido pelo Estado, pretende regenerar um criminoso se utilizando da técnica de estímulo-resposta, uma espécie de terapia da aversão: você coloca um indivíduo para assistir a imagens de violência que provoque nele sensação de nojo diante de tais imagens. Você estimula nele o nojo. Toda vez que esse indivíduo procurar praticar algum delito que prejudique o seu próximo, ele não terá sucesso, porque vai associar a violência à sensação de nojo. Você, então, obtém a resposta. 

Alex submetido ao Tratamento Ludovico.

Estímulo: NOJO diate da VIOLÊNCIA
Resposta: todo tipo de VIOLÊNCIA lhe causará NOJO


Parece brilhante, não é? Menos para o capelão do filme. Capelão é um sacerdote responsável pelos ofícios religiosos de uma capela. Na prisão em que Alex se encontra, o capelão que ganhou a simpatia do jovem delinquente sociopata, se coloca veementemente contra a proposta do Tratamento Ludovico, porque afirma que ele retira todo o livre-arbítrio do ser humano. E BINGO! BINGO! Pronto, caros leitores, é aqui que eu queria chegar, justamente aqui! Deletem de suas mentes tudo, TUDO, tudo o que vocês leram até aqui, não serviu de nada esse mar de palavras firulentas (inventei um adjetivo). Livre-arbítrio. Eis a questão.

Agora vou abrir um enorme parênteses pra dar uma de gênio mirim. [ALERTA DE PARÁGRAFO INÚTIL! ALERTA DE PARÁGRAFO DESNECESSÁRIO! ALERTA... PULE ESTE PARÁGRAFO SE QUISER] Quando eu era adolescente, cheguei a pensar numa espécie de vacina que pudesse ser aplicada em foras da lei e pudesse neutralizar o impulso criminoso deles. Comentei com um amigo. Não sei como isso funcionaria, mas a finalidade seria essa. Olha só o escritor de ficção científica que existia em mim e ninguém nunca deu valor. Ressentimentos a parte, voltemos agora para o nosso assunto em questão.
  

VAMOS AO QUE INTERESSA: O TAL DO LIVRE-ARBÍTRIO 

Bom, como eu ia falando, o filme de 1971 de Kubrick toca nesse tema um tanto quanto filosófico que é o livre-arbítrio. O filósofo Santo Agostinho (354-430), pensador medieval que fazia uma relação entre filosofia e teologia, se debruçou sobre o tema da liberdade humana.   

Santo Agostinho: a filosofia da fé e da razão.

Para Santo Agostinho, a razão e a fé não se excluem. Pelo contrário, a razão serve para compreender melhor as coisas da fé. O pensamento filosófico se faz, então, necessário para fortalecer cada vez mais a fé. A razão, para Agostinho, é uma capacidade essencialmente humana, ou seja, nossa natureza humana, feita à imagem e semelhança de Deus, é definida pela racionalidade. Diferentemente de outros seres vivos, o ser humano possui razão e é graças a essa razão que temos o livre-arbítrio que pode ser definido como a possibilidade de escolher. Exatamente, podemos escolher, escolher inclusive deixar de ler esse texto (o que eu recomendo imensamente). Bem ou mal, eis a questão. Para Santo Agostinho, o mal não existe. Mas como assim não existe? Simples: seria um erro de lógica, uma contradição lógica, afirmar que o mal existe. 


CADERNO E CANETA NA MÃO QUE LÁ VAI EXPLICAÇÃO

Vamos imaginar o seguinte. Existe um mundo, pessoas, demais serves vivos e não vivos, animados e inanimados, e existem coisas. Sim, existe tudo isso. Foi você que criou? Não. Foi seu vizinho? Muito menos. Então quem criou o mundo, os seres que nele habitam, a ordem cósmica e o amor? Claro que deve ter sido um ser supremo, superior, sábio. No sistema filosófico de Agostinho, esse ser é Deus. Então Deus é O Criador. 

Se tudo o que existe, existe, então deve ter sido criado.Se não foi criado por nenhum mero mortal, então foi criado por Deus. O bem existe? Claro, existe e foi criado por Deus, que, segundo Santo Agostinho, é amor e a suprema representação do Bem. Mas e o mal, existe? Não. Porque o Bem não pode criar o Mal. Do Bem não advém o Mal. Corretíssimo. Isto está de acordo tanto com a lógica da boa filosofia quanto com a boa nova da fé cristã em voga na época da Idade Média.

Consta no evangelho de Mateus 7:18 as seguintes palavras:
"Não pode a árvore boa dar maus frutos; nem a árvore má dar frutos bons."

Então, querido Agostinho, como resolver esse dilema? Da seguinte forma: o mal não existe, é ausência do bem. E nós, como seres humanos, podemos julgar de que forma utilizamos nossa liberdade. Somos árbitros, juízes, das nossas escolhas. E é justamente aí que o capelão da prisão onde se encontra o delinquente Alex entra na história. Ele questiona o Tratamento Ludovico. 

Alex pode até nunca mais cometer nenhum crime. Em termos de convivência em sociedade, isso seria ótimo. Mas a pergunta que precisamos nos fazer é filosófica: será que ele deixaria de praticar a ultra violência por mérito próprio ou apenas por sentir intenso mal-estar na hora que tentasse violentar alguém? Será que deixaria de praticar o Mal porque realmente escolheu ser uma pessoa do Bem ou simplesmente por não querer sentir enjoo e vontade de vomitar? Os atos de Alex, dali por diante, poderiam estar de acordo com o código escrito de regras que ordenam uma sociedade. Mas será que seus atos poderiam ser considerados éticos? 


ÉTICA E DIGNIDADE HUMANA - AULA DE FILOSOFIA DO DIREITO?

Aí adentramos o campo do que é e do que não é ético. devemos esclarecer que um ato considerado legal é um ato que está de acordo com a lei, com a legislação, por isso o termo legal. Existe legalidade naquele ato porque ele está de acordo com a lei jurídica escrita daquele tempo e lugar. Mas você sabia que nem todo ato que está de acordo com a lei jurídica escrita de um determinado tempo e lugar é necessariamente um ato ético? São esferas diferentes. Em outras palavras, nem tudo que é legal é também ético. Explico, já que você insiste. 

Segundo o filósofo iluminista Immanuel Kant (1724-1804), a ética pode ser resumida da seguinte forma:

Immanuel Kant, filósofo que contribuiu grandiosamente com o Iluminismo.


Ele chama isso de Imperativo Categórico. E o Imperativo Categórico, segundo sua filosofia moral exposta em obras como Fundamentação da Metafísica dos Costumes (1785) e Crítica da Razão Prática (1788), é a lei moral e ética por excelência, pois é um mandamento da razão. Todo ser possuidor de razão pode seguir essa lei que sua própria consciência lhe impõe. Ou seja, não existe nenhum poder coercitivo externo que nos espanca para que sigamos essa lei da razão, bastando apenas que cada ser humano tenha a boa vontade de agir por respeito e obrigação em concordância com o Imperativo Categórico. O critério então é este: se uma ação pode ser universalizada, isto é, servir de lei para todo ser racional, então esta é uma ação ética. Caso contrário, se mentir não pode ser uma ação que sirva como lei universal, então mentir seria antiético em todo tempo e lugar. E mais, Kant ainda trata do conceito de dignidade humana, importantíssima peça do quebra-cabeça da filosofia moral kantiana. 

Todo ser humano é possuidor de racionalidade. Pensamos: duvidamos, questionamos, imaginamos, refletimos. Então, todo ser humano é senhor de si mesmo, porque tem plena capacidade de se utilizar de seu próprio pensamento e liberdade para decidir sobre suas ações. Isso se chama autonomia. Eu sou meu próprio senhor e a razão que possuo é legisladora de minhas ações. Sei muito bem o que bom e o que é mau, sei o que é Bem e o que não é, portanto o que é Mal. Basta que eu faça um exame de consciência para saber distinguir uma coisa da outra. Se sou racional, sou livre e igual a todo e qualquer ser humano racional. Então devo agir respeitando a dignidade do outro e o outro deve agir respeitando a minha dignidade. Dignidade da pessoa humana nada mais é que você tratar o outro como um fim em si mesmo e não como meio. Se retiro a liberdade do outro, retiro consequentemente sua dignidade. Se tento comprar uma pessoa como se ela fosse uma propriedade, estou agindo contra a dignidade daquela pessoa. Ela, na mesma medida que eu, é livre e dotada de autonomia.

Se dermos uma olhadinha pela história da humanidade, vamos nos deparar com vários episódios em que existiam leis que não eram justas, portanto, antiéticas. No Brasil, do século XVI até final do século XIX, a escravidão era tida como algo permitido por lei, ou seja, juridicamente aceitável. Pessoas eram tratadas como objeto, como posse, como propriedade. Tratadas como um meio para uma finalidade estabelecida pelo seu dono. Aí nos vem a pergunta: isso era algo legal (de acordo com a lei)? Sim, era considerado legal. Mas era ético? Não, claro que não. Feria brutalmente o conceito de dignidade humana. 


AGORA (ATÉ QUE ENFIM HEIN, LEITOR), VOLTEMOS PARA O CASO ALEX E SUA CONCLUSÃO 

Então, no filme Laranja Mecânica, o capelão questiona o Tratamento Ludovico com muita razão. Podemos simplesmente neutralizar o livre-arbítrio de Alex, ou de qualquer outra pessoa, com o objetivo de impedir que essa pessoa deixe de praticar atos considerados maléficos? 

Retirar o livre-arbítrio, para Agostinho, é retirar a aquilo que caracteriza a essência da natureza humana. Retirar a liberdade de decidir, para Immanuel Kant, é retirar o valor ético de uma ação. Se eu não escolhi fazer o bem, apenas o fiz por medo do mal-estar, do enjoo e do vômito, então minha ação não tem mérito ético. Fui educado de fora para dentro, e não de dentro para fora. Logo, Alex não é bom em si mesmo. É bom em determinada circunstância pelo simples motivo de que não consegue praticar o mau. Partindo, então, do pensamento de Santo Agostinho e de Immanuel Kant, o caso Alex não estaria resolvido com sucesso. A questão que fica no ar é: e se um dia, por acaso, o mal-estar, enjoo e ânsia de vômito passarem, Alex voltará a agir como um delinquente sociopata que ele sempre foi na sua juventude? 



Tanta firula pra terminar assim, hein, com uma pergunta sem resposta. Parece aquelas contas onde o X é igual a 0. Mas aí é que consiste a graça da filosofia, meus caros, a dúvida. Durma com essa dúvida. 

PEQUENO GUIA PARA IDENTIFICAR GURUS

PRA COMEÇO DE CONVERSA O que é um guru? Qual é o papel de um guru? Até que ponto o guru é importante? E quando um guru pode ser...