I. O ALTO QUE ELEVA E LEVA AO AUTO
O autoconhecimento exige um alto conhecimento. O que seria o autoconhecimento? Em linhas gerais, é o conhecimento de si mesmo. E por que exige um alto (de altura, grande dimensão) conhecimento? Porque, talvez, uma das coisas mais difíceis da vida é a gente se conhecer realmente. Para coisas consideradas difíceis, as tarefas são mais dificultosas, mais trabalhosas do que o normal.
Estamos acostumados a dizer que não existe ninguém melhor do que a gente mesmo pra se conhecer. Em certa medida, isso é verdade. É verdade no sentido de que apenas nós mesmos podemos trilhar esse caminho para dentro de nós mesmos. Por outro lado, em certa medida não é verdade no sentido de que não necessariamente nos conhecemos de fato só porque nós somos nós. A verdade é que muitos estão ocupados demais com coisas fúteis demais para pensar. Isso me lembra uma música de uma banda dos anos sessenta aqui no Brasil, que considero melhor que os tios Beatles diga-se de passagem - desculpe-me se feri seus sentimentos musicais. Eu estou falando do grupo Os Mutantes, meus caros. Em 1968, em seu álbum de estreia, lançaram a música "Panis et Circenses", que em latim significa pão e circo. Essa canção foi composta por Caetano Veloso e Gilberto Gil e traz um verso que se encaixa bem no que quero dizer:
(...) as pessoas na sala de jantar
São ocupadas em nascer e morrer
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| Capa do álbum Os Mutantes (1968) que contém a música "Panis et Circenses". |
Bom, eu não tenho a interpretação absoluta das obras de arte do universo. Na verdade, uma obra artística permite infinitas interpretações. Por isso é considerada uma obra de arte e não um objeto científico. Quando Os Mutantes entoam esses versos acima, eles querem basicamente dizer que as pessoas estão muito mais preocupadas com coisas fúteis do que em realmente viver a vida. Estão muito mais ocupadas em nascer e morrer e se esquecem de viver o que existe entre esses dois extremos. E viver exige de nós um pensamento aprofundado. Mas quem está disposto a pensar?
II. PENSAR BEM PARA VIVER BEM
Viver por viver é apenas viver. E o que o ser humano quer, segundo o filósofo Aristóteles (385 a.C. - 323 a.C.), é viver BEM. Só que para viver bem, meus amigos e minhas amigas, precisamos inexoravelmente colocar a cuca pra trabalhar. Eu vivo bem se eu tomo as melhores decisões possíveis diante da vida; para tomar as melhores decisões possíveis, preciso pensar, preciso refletir sobre todos os caminhos que se apresentam mim.
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| Busto do filósofo grego Aristóteles. |
Em Filosofia temos uma expressão em latim, conditio sine qua non, que significa "condição sem a qual não pode ser". Então podemos afirmar que pensar, refletir, é conditio sine qua non para viver bem na medida do possível. E aqui retornamos ao tema que deu entrada a esse texto, o autoconhecimento.
Eu só posso ter uma vida tranquila, viver bem, se eu me conhecer; para conhecer a mim mesmo, preciso praticar a reflexão. Eu coloco praticar porque considero que pensar é um esporte, ainda que mental, mas um esporte, um exercício que nos faz sim gastar energia. E assim como todo esporte, quanto mais pratico, mais aperfeiçoo minhas habilidades. Nesse sentido, o autoconhecimento é um exercício mental que exige de cada um de nós um alto conhecimento, e, consequentemente, esse alto conhecimento sobre mim mesmo só pode ser construído ao longo do tempo. Ou seja, conhecer a si mesmo não é tarefa muito fácil. Exige paciência, muita paciência. Muitas pessoas se frustram nessa busca porque querem resultados imediatos, aqui e agora, de preferência pra ontem! Pessoas desesperadas, vazias de alto conhecimento sobre si mesmas, correm atrás de gurus que possam lhes dar a resposta absoluta sobre todas as coisas, quando, na verdade, a resposta está dentro de nós mesmos.
Meus caros, a Filosofia não existe para oferecer uma receita da Felicidade. Oh, a tão sonhada Felicidade! Tema pensado e repensado, esquentado e requentado por todos os pensadores da história da Filosofia. Não, meus caros, a Filosofia não pode oferecer Uma Resposta Absoluta, Receita Para A Felicidade Eterna e Infinita. Na verdade, o que podemos colher do pensamento filosófico são orientações. O filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860) - que não é o melhor exemplo de pessoa para se falar de Felicidade (risos meus) -- afirma na sua obra O Mundo como Vontade e Representação (1819) que o papel do filósofo é o de esclarecedor.
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| Arthur Schopenhauer, conhecido por seu pessimismo filosófico. |
O filósofo esclarece, elucida, orienta. Portanto, não cabe à Filosofia oferecer Uma Resposta Absoluta do Caminho Brilhoso da Felicidade. MAS, mas - vejam que nem tudo está perdido -, mas podemos sim buscar na Filosofia algumas dicas de suma importância.
III. PAUSA PRA BEBER AQUELA ÁGUA... AGORA SIM! VAMOS AO CONHECE-TE A TI MESMO
Sócrates (469 a.C. - 399 a.C.), filósofo ateniense do período da Grécia Antiga, não escreveu nada. Não estava ocupado em nascer e morrer, pelo contrário, sua maior preocupação foi a vida. Tudo o que sabemos sobre seu pensamento filosófico é graças ao seu melhor discípulo, o filósofo Platão (428/427 a.C. - 348/347 a.C.), que registrou as ideias de seu mestre em obras chamadas de Diálogos. Deixem-me só abrir uns parênteses aqui: (Obrigado, Platão!).
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| Estátua do filósofo Sócrates, na entrada da moderna Academia de Atenas. |
Sócrates não escreveu nada porque ele preferiu viver a Filosofia. E para Sócrates a Filosofia é uma reflexão sobre a vida, é uma reflexão sobre nós mesmos e sobre nossas ações. O autoconhecimento e a ética, portanto, são os pilares do seu pensamento. Lá na Grécia Antiga existia o Oráculo de Delfos, que era um lugar que você visitava para fazer perguntas e pedir conselhos à divindade, que no caso de Delfos era o deus Apolo. Acreditava-se que a Pítia (ou Pitonisa), que era a sacerdotisa responsável pelo santuário, era inspirada pelo deus Apolo e por isso ela era considerada uma espécie de profetiza. Na entrada do Oráculo de Delfos existia a seguinte frase: Conhece-te a ti mesmo e assim conhecerás o Universo. Sócrates adotou essa frase para a sua vida. A sua Filosofia é um convite para que todo ser humano conheça a si mesmo.
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| Sacerdotisa de Delfos (1891), pintura do artista inglês John Collier. |
Mas a questão é que o AUTOconhecimento exige ALTO conhecimento. Conhecer a si mesmo é uma tarefa metafísica, por isso mesmo trabalhosa. Estamos muito mais acostumados em lidar com coisas materiais, objetivas, palpáveis. É muito mais fácil, porque é muito mais cômodo. Olhar, ouvir, sentir, é muito mais fácil. Já o pensar exige aprofundamento, exige ir além dos sentidos, ultrapassar a APARÊNCIA para poder dar enfim os primeiros passos na trilha da nossa ESSÊNCIA. Por isso que usei a palavra metafísica que em Filosofia significa "aquilo que está além - acima - dos sentidos", além (meta) da matéria (física).
Mas sabe qual é o lado bom de tudo isso? É que é difícil, mas não é impossível. É possível porque o autoconhecimento é tarefa essencialmente humana, ou seja, é acessível a todo e qualquer ser vivo que possui racionalidade. Somos todos capazes de nos autoconhecer. E isso independe de grau de escolaridade, a idade que você tem ou de quantos livros você já leu na vida. Tudo isso ajuda? Sim, claro, ajuda bastante. Mas atrapalha muito se você não tem o querer necessário para conhecer a si mesmo. Para dar o primeiro passo na estrada do autoconhecimento, você precisa querer. existem pessoas que já leram bibliotecas imensas, mas que nunca pararam pra se perguntar: quem sou eu? Qual o meu papel no mundo? Qual a minha razão de ser e de estar? É o que eu costumo chamar de papagaios. Repetem, repetem e repetem tudo o que leem. São pessoas que conhecem mais aos outros - os inúmeros escritores e autores e diretores de filmes cult e faladores -, mas não conhecem nem a beirada de si mesmas. Conhecer a si mesmo é fazer de tudo isso apenas um meio para uma finalidade principal: adentrar em si mesmo. Também não sou nenhum louco idealista - pelo menos eu acho que não sou - pra dizer pra vocês que o autoconhecimento exige a anulação dos nossos sentidos. Ah, o professor disse que pra eu me conhecer, tenho que me trancafiar no quarto mais escuro e solitário do mundo, de olhos fechados, calado, no silêncio mais profundo e fúnebre do cosmos, pra perguntar a mim mesmo quem sou eu, de onde vim e pra onde vou. Não, meus caros. Existem vários métodos e maneiras de se aprofundar em si mesmo. Meditação, leitura de bons livros, apreciar uma deliciosa música melodiosa e poética, assistir a filmes clássicos e até os mais populares possíveis. De todos esses meio podemos tirar grandes reflexões sobre a vida, sobre a existência, sobre a gente mesmo. Mas é fazer de tudo isso um meio. Ou seja, utilizar nossos sentidos - visão, audição, tato, paladar e olfato - como um meio para o autoconhecimento.
IV. PREFIRO MORRER DO QUE PERDER A VIDA... SEM FILOSOFIA
Uma das coisas mais saborosas da vida, meus caros, é você buscar pelo conhecimento de si mesmo. É desafiador. Isso nos proporciona uma áurea de paz interior. E tudo ao nosso redor fica mais cheiroso pra alma. O autoconhecimento tem a duração de uma vida inteira. Ou, na verdade, nem isso. Morremos sem nos conhecer totalmente. Cada um de nós tem um universo infinito dentro de si. Por isso temos que ter paciência. Tem gente que termina o Ensino médio ou a Faculdade e fiz que já se formou. Engana-se quem pensa assim. A formação é contínua. Saímos do Ensino Médio ou da Faculdade mais deformados ainda. E durante a vida é que vamos nos construindo, nos formatando, nos modelando. A paciência é uma grande amiga no desafio do autoconhecimento. Os filósofos que se empenharam nessa tarefa foram felizes, meus amigos, eles foram felizes. Não é em vão que Sócrates preferiu ser condenado à morte a ter que deixar de lado a Filosofia.
Uma vida sem reflexão não vale a pena ser vivida, disse Sócrates momentos antes do instante derradeiro de sua morte. Essa frase só encontra paralelo na frase do Chaves, do seriado mexicano de mesmo nome criado por Roberto Gómez Bolaños. Diz Chaves no episódio 113 da 4ª Temporada (1976): "eu prefiro morrer do que perder a vida". Frase lapidar, convenhamos. Resumiu de maneira simples e bem humorada a frase socrática. Uma vida sem Filosofia, sem reflexão, sem a busca do conhecimento de si mesmo, é uma vida perdida. É preferível morrer do que perder a vida desse jeito. Chaves também é cultura.
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| A Morte de Sócrates (1787), pintura do artista francês Jacques-Louis David. |







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